Hotel do Carmo, o Vintage que faz hoje 49 anos

By 23 Novembro, 2017Inesquecível

Senti que tinha entrado na máquina do tempo, sem ter saído da minha cidade. Parei algures numa recepção onde Paul Newman e Marilyn Monroe me davam as boas vindas e segui em passos demorados para o ano de 1968. Deslumbrei-me, deliciei-me, perdi-me nas décadas, quase uma mão cheia delas, de histórias daquele balcão com vista sobre a cidade.

O Hotel do Carmo faz hoje 49 anos. Tem na sua biografia os últimos anos da ditadura, o primeiro passo do homem na lua, uma Revolução e um inesquecível temporal de um 20 de Fevereiro de 2010 que o invadiu sem piedade. Felizmente, a aluvião que esventrou a cidade mostrou um património guardado em arredacações esquecidas. Felizmente, houve quem tivesse tido a visão de recuperar a história e património de um dos mais antigos hotéis da Madeira. E agora, quando Mónica Freitas me guiou pelas cinco décadas de turistas em entradas e saídas quase silenciosas, senti que a directora do hotel me levava para uma viagem no tempo.

Os cadeirões que eu achei terem sido comprados recentemente num designer de renome são, afinal, os mesmos em que se sentaram os primeiros hóspedes, quando o hotel foi aberto graças ao esforço conjunto de várias famílias madeirenses. Diz-me, quase em jeito de queixa, que nem imagino a quantidade de hóspedes que querem comprar peças de mobiliário. Deito o olho para a máquina registadora que sobressai nos cadeirões brancos entendo-a. Como entendo o seu orgulho e a forma como fala no hotel, quase como se ali tivesse crescido e sorrido para os primeiros hóspedes.

Miminhos intemporais

A máquina do tempo, com a anfitriã demoradamente aos comandos, deveria levar-me para o cenário Vintage da sala de pequenos-almoços, mas de repente abre a tampa de um móvel e deparo-me com um giradiscos. Do outro lado, a bobine, que passava música em fitas escuras. Transporto-me para as bandas sonoras de 60 e recordo o painel da entrada, com um directório dos quartos, onde me foram cuidadosamente explicados pequenos pormenores. É que Mónica mima os clientes ao ponto de dar um quarto com a serenata à chuva de Gene Kelly a uma hóspede e oferecer o olhar de Elizabeth Taylor a um cliente. Os casais podem apreciar a mítica Casablanca ou mesmo ver cenas de filmes dos anos dourados.

Entro depois no Funchal antigo. De imagens que deixaram de nos entrar no olhar, mas não na alma. As grandes fotos a preto e branco parecem brincar com a parede de vários tons de verde, preservadas pelo tempo e por quem não as considerou fora de moda.

Ajeitando uma cadeira, a directora explica que aquelas também são as originais e que vários clientes as quiseram comprar nos últimos tempos. (Pelo menos não as levam na mala como alguns já fizeram aos cabides dos quartos, como vim mais tarde a saber).

Quanto mais viajo no tempo, mais me surpreendo. A anfitriã leva-me a visitar os quartos. Onde os pequenos retratos do directório da recepção se expandem e estendem na parede atrás das camas. Só a TV Led de 32 polegadas lhe dá um toque futurista. Estamos a meio da cidade e parece que estamos em Holllywood, o cinema mora ali, mas ainda me consegue surpreender mais quando me mostra o cabide de pousar a roupa, de madeira com meio século, plantado no chão do quarto. É estranho imaginar a peça desmontada dentro de uma mala… mas há coleccionadores para tudo.

Continuamos a subir. Até uma varanda com vista sobre o Funchal. Apetece ficar ali a tarde toda, no primeiro terraço, a ver a baía e os navios e a cidade pelos telhados.

Mas depois, com mais uns degraus, mostra-me a zona da piscina, no seu formato original, completamente assimétrica, uma ideia futurista na época, imagino eu. O solário foi totalmente renovado, o bar abre durante o verão, mas no resto do ano os hóspedes podem pedir o que quiserem pelo telefone. E quando penso que já vi tudo, leva-me ao último dos três terraços, onde a vista sobre a cidade é soberba. Os telhados estão ainda mais abaixo, porventura mais insignificantes, perante a imponência do local onde vemos toda a baía e o anfiteatro a 360 graus. Tiro fotos. Muitas. Parece que receio sair da máquina do tempo sem levar as recordações da viagem.

Funchal espreguiça-se

Imagino a cidade a crescer ao longo destes 49 anos e os colaboradores do hotel, especialmente os mais antigos, a verem o Funchal espreguiçar-se cada vez mais serra acima. Os proprietários a levarem filhos e netos àquele recanto da cidade que se revitaliza lentamente, que se moderniza do lado de fora das paredes e das varandas do hotel de 80 quartos, com wi fi gratuito em todos os pisos e áreas.

Encantada com a vista, rendida aos pormenores, desço para a última parte da visita. Uma sala mais aconchegante, um jardim interior calmo e convidativo, uns vitrais indiscritíveis bordados a chumbo (que já não se fabricam) e uma caixa registadora que me faz morrerem as palavras quando quero transmitir o que vejo. Mónica explica-me pacientemente cada pormenor da peça. Multiplica-se em simpatia e orgulho do que tem para oferecer aos que ali entram e saem, como se fossem todos passageiros da máquina do tempo. Não sem antes me mostrar que deliberadamente deixa por todo o lado marcas do passado, a hospitalidade que caracteriza mais de duzentos anos de turismo e até fruta para quem passa pela recepção.

É onde aterro. É onde termino a viagem e, com a mão na maçaneta de madeira com o logótipo do hotel, com meio século de mãos a tocá-la, volto a 2017 em direcção à Rua do Carmo. Mas levo na mala a vontade de voltar para deliciar-me com um café, um chá, um lanche numa tarde destas na sossegada esplanada das traseiras, um local aberto a todos.

 

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