Cafôfo fugiu de uma freira e foi parar à Quinta Vigia

Para quem, como Paulo Cafôfo, vivia na Rua do Bom Jesus, em pleno centro do Funchal, os fins de semana na casa dos avós do Jamboto, em Santo António, ou as férias na casa dos avós da Madalena do Mar eram sinal de liberdade. A freguesia do concelho da Ponta do Sol, banhada pelo Atlântico ficava, de facto, no fim do mundo, porque não era local de passagem. O túnel de ligação à Calheta estava ainda a ser construído e quem ia para o concelho mais a oeste da Madeira ia pelos Canhas.

Era fácil, por isso, passar o dia inteiro de calções e chinelos, a entrar e a sair do mar que até hoje faz parte da sua vida, com dezenas de jovens que, como o actual presidente da Câmara Municipal do Funchal, ali passavam o verão.

“Ainda hoje guardo amizades desse tempo”. Das casas de família perto da sua ou dos acampamentos naquele parque de campismo selvagem que durante anos ali se montava de Abril até Outubro. As pessoas iam fazer as suas vidas e só voltavam nos feriados ou férias, mas não desaparecia nada das tendas. Outros tempos. Paulo confessa que é das memórias mais felizes que guarda da adolescência e até hoje conserva amigos que só via nessas romarias de funchalenses em dias assinalados.

É também daí que vem o espírito familiar que guarda dos convívios com os primos. Fala desses momentos, que perduram até agora e da felicidade que sente por ter podido passar esse espírito à geração seguinte. Embora já com telemóveis, mesmo que estejam todos juntos. Por outro lado, o professor de História, apaixonado pelas raízes e pela cultura, é um homem simples, que acabou por romper com algumas tradições que se vislumbravam na ilha desde sempre, como uma instalada hereditariedade nos mais diversos cargos.

Quando apareceu em 2013 como candidato à maior autarquia da Madeira, a pergunta que mais se fazia era: “mas ele é filho de quem?”.

A resposta é igual à de tantas outras famílias. O pai era funcionário de uma empresa comercial e a mãe, professora do Ensino Básico. Durante um tempo, quando faliu a empresa onde o pai trabalhava, a mãe teve dois empregos. Depreendo que foi o primeiro Cafôfo a ir para a política. Confirma-me. E foi um tormento lá por casa. Quando disse ao pai que ia estudar História e não Economia, deu um desgosto ao progenitor, mas levou adiante o que sempre tem sido o seu lema de vida. Só fazer aquilo em que acredita. Estava na altura da decisão na APEL, depois de ter passado por Santa Clara, Santa Teresinha e Salesianos. O pai teve de aceitar, tendo sido depois compensado pela escolha da filha, três anos mais nova do que Paulo e pelo próprio filho do autarca, que entrou recentemente em Economia.

Estudou em Coimbra. Virada para o Mondego, longe da Praia Formosa que faz parte de muitos dos dias do seu calendário.

“A minha relação com o mar é inexplicável. Saio de casa às sete da manhã, sem precisar de carro, dou a minha corridinha até Câmara de Lobos e quando regresso à zona do Centromar dou um mergulhinho e deito-me no calhau a secar antes de voltar para casa”. Uma forma de fazer terapia das pedras quentes, mas sem ter de pagar uma fortuna. Mas quando está ali, a sua criança interior desperta e não resiste a atirar umas pedrinhas para o mar. Deve ser por isso que o vemos sempre bem disposto. Descarrega toda a energia antes de chegar na sua Vespa ao estacionamento dos Paços do Concelho. Normalmente a essa hora já falou com a mãe, como faz todos os dias. Depois diz-me, quase em segredo, que a senhora, que ficou viúva no ano passado, vai nessa tarde para a Madalena do Mar, num táxi daqueles de sete lugares, como faz quase sempre, para passar o fim de semana a mexer na fazenda, mas sem esquecer o ioga, que pratica há muito tempo. “Ela é feliz assim”, mas não deixa de se preocupar com o que dizem e escrevem do filho autarca. Paulo reconforta-a, pede que não ligue, que desvalorize, mas não esquece as palavras do pai, falecido em 2016, que lhe dizia sempre não conseguir entender porque é que o filho mais velho se meteu nessas andanças da política.

 

Estamos em 2017. Longe, portanto, desse ano de 1982, quando o ET invadiu o ecrã do Cine Santa Maria. O primeiro filme que se recorda de ter visto numa sala de cinema a sério, mas também se lembra do cinema no Porto Santo, porque o avô paterno, electricista, montava os sistemas nos centros de saúde no arquipélago. Um trabalho num tempo difícil, dormia em casa de várias pessoas, quando o turismo rural e o alojamento local eram apenas uma miragem. Quando ia ao Porto Santo trabalhar, o avô Cafôfo levava os netos e ainda se lembra de o senhor lhes pedir para o cobrirem com areia, porque fazia bem aos ossos. Empiricamente, todos sabiam dos benefícios daquele gesto.

A conversa já ia na terceira geração e ainda não tinha encontrado “sangue azul”. Encontrei uma história simples de gente bem disposta, de bem com a vida, com um sentido de humor à flor da pele e que não deixa de ser quem é só porque desempenha o cargo actual. Não é “o filho de…”, é o professor que ainda há dez anos estava a trabalhar na Escola da Fajã da Ovelha.

No seu gabinete, há uma coluna que liga ao telemóvel durante várias horas do dia, para ouvir música. Tem de haver som, tem de haver melodia, tem de haver inspiração quando se trabalha. Gosta de todo o tipo de música, tem é de senti-la. É uma pessoa de emoções, mesmo aquelas que não se conseguem disfarçar em público, como já aconteceu em actos em que uma lágrima aparece sem aviso prévio. “Eu tento disfarçar, mas nem sempre é fácil”. Deve ser por isso que a meditação assume um papel tão importante na sua vida e que o incenso que perfuma o seu gabinete na autarquia torna o ambiente relaxante. Mas não era nada relaxante ter de entrar numa aula de música, quando andou no Colégio de Santa Teresinha. A Irmã Benilde, temida por todos os alunos, causou-lhe traumas de tal forma que a mãe, que queria que Paulo aprendesse um instrumento, o matriculou no Conservatório. Onde apanhou como professora… a irmã Benilde. Acabou nessa altura a sua ligação à música. Curiosamente, o objectivo era que tocasse piano. E depois, num sorriso carregado de humor negro, confessa: “Eu já estive na Quinta Vigia… era lá que funcionava o Conservatório”.

Do Colégio, não guarda traumas é da patinagem artística. “Eu era bom naquilo”, na altura em que a D. Trini Romero, a bailarina gibraltina que dava ginástica, também ensinava patins e ballet. Naquele ginásio que parecia infindável e que hoje, quando se é adulto, compara Paulo, parece diminuto.

Entro em terreno pantanoso. Pergunto onde vai buscar a calma perante o caos. Como é que aparece sereno durante um desastre, recordo a árvore do Monte, mas sobretudo os incêndios de 2016. “Tive um sentimento de impotência perante as chamas. Sou de carne e osso, não há um super-herói que desliga o botão das emoções”. Mas consegue manter a calma quando todos estão em pânico e é talvez isso que o ajuda a manter o equilíbrio mental e sobretudo a não ter sentimentos mesquinhos. É por isso que quase de imediato prossegue: “Eu não guardo rancor. Não tenho aquele sentimento mau que alimenta algumas pessoas. Eu perdoo… mas não esqueço”.

Do outro lado da balança, está a calma em contraponto com a euforia. Em 2013, perante os resultados eleitorais, enquanto todos exaltavam a vitória, parecia um espectador, sem grandes manifestações de regozijo.

Gosta de cultivar a lealdade. E gosta que as pessoas discordem dele, detesta a bajulice e a subserviência. Enquanto o diz, contorce-se como se estivesse a ser atacado por um enxame de abelhas e completa. “Detesto, detesto”. Mas gosta muito da gratidão e da humildade. Não se sente superior a ninguém, mas confia nas suas capacidades. Nada que se compare ao sexto sentido feminino, diz a sorrir, resignado.

Recuperar a cidade, a história e a alma da cidade, são a sua grande meta. Por ser professor da área, aprecia os lugares com anos de gerações entre os seus espaços. “Os lugares são pessoas. Nós precisamos de renaturalizar a cidade”, depois da betonização. “Não sou contra a construção civil e as obras públicas, mas sou contra a amnésia sobre a nossa história”.

“Temos uma cidade tão interessante, com tantos recantos, limpa, delicada, que tem espaços e lugares que precisam de ser cuidados”. É quase preciso fazer um detox. Devolver a alma a locais como os Bairros dos Moinhos e dos Frias. Criar acessibilidades e pracetas, miradouros, em becos serpenteados de onde se aprecie a cidade e se possa respirar a sua história…

 

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