A Rota de Eduardo Costa

By 11 Setembro, 2017Gente que Marca

Eduardo Costa dispensa apresentações no mundo do audiovisual. Desde há mais de vinte anos tem andado na rota do contrabando, na revolta do leite, nas raízes de um povo, pois corre-lhe no sangue a história das nossas ilhas. Tem transportado para a tela alguns dos episódios mais marcantes da sua história.

Dobrada a esquina onde os cinquenta anos o esperavam, o homem que comprou a sua primeira câmara para filmar estágios de judo, tem quase 30 de profissão, um sem número de cursos recebidos e ministrados e uma mente cheia de ideias férteis para materializar.

Hoje, o estúdio onde cria e emprega colaboradores oriundos de várias áreas, é onde passa grande parte do seu dia, quando não está a dar aulas ou a procurar histórias para contar a várias gerações.

Gosta de desafios. De superar-se. Quando lhe pergunto qual o seu melhor trabalho, responde prontamente que foi o último. Cada vez que acaba uma produção, anota mentalmente que a próxima será ainda melhor.

Deve ter sido por isso que um dos seus últimos trabalhos, “A Rota do Contrabando”, feita para a segunda edição do Festival Aqui Acolá, na Ponta do Sol, venceu recentemente o prémio de melhor curta metragem documental, na 4ª edição do Figueira Film Art, que decorreu de 28 de agosto a 3 de setembro, na Figueira da Foz.

Um orgulho, sim, mas um problema para quem quer sempre superar-se. Curioso é o facto de só agora Eduardo Costa ter começado a concorrer a prémios, até porque naquela coisa da sétima arte, mandar um trabalho para um concurso, vai sempre pregado a um cheque. Nem sempre conseguiu fazê-lo, mas a estrutura da empresa até já lhe permite ter alguém a tratar de pesquisar prémios que valham a pena querer trazer para casa.

A “Rota do Contrabando” retrata a história dos homens que transportavam de norte para sul da ilha da Madeira centenas de litros de aguardente, durante a noite, pelo planalto do Paúl da Serra.

Contaram-lhe histórias, a medo, temiam que passados 50 anos viessem no seu encalço e os levassem para interrogatório. Eduardo esperou. Conversou, viveu aqueles dias como se uma máquina do tempo o tivesse levado para o Seixal do antigamente e subido e descido as serras com os homens que entregavam a aguardente na Ponta do Sol. Depois das conversas mantidas quase com tanto segredo como a rota em si, sentou-se numa plateia imaginária e idealizou o que o público queria ver. Não hesitou. Sentiu a alma daquela história percorrer-lhe o corpo, sorriu para o ecrã da sua mente e criou um dos melhores documentários sobre história da Madeira. Claro que quando o acabou, interiorizou que a “Revolta do Leite”, o trabalho seguinte, superaria os percursos errantes da aguardente.

Mas o percurso de Eduardo Costa no audiovisual não começou num curso de formação profissional ou num part-time numa televisão. Foi, imagine-se, no Ginásio Carlos Gonçalves, onde se tornou o primeiro cinturão negro da Madeira em judo. Mais tarde foi treinador e director técnico regional. Como  a internet ainda vinha longe no calendário e o facebook, o youtube e o vimeo eram miragens, as técnicas ou se aprendiam nos livros, ou em estágios com os que praticavam a modalidade há mais tempo. Era a câmara de Carlos Franquinho, seu grande amigo, que registava primeiro os estágios, depois passavam as imagens numa televisão colocada em cima do tapete no ginásio e só mais tarde Eduardo teve a sua própria câmara.

Aliás, é da opinião que dois minutos de imagem valem muito mais do que um livro inteiro de ensinamentos. Assim, começou a ligação dos audiovisuais e das artes marciais, que depois de um período de interregno, há uns anos, o fez voltar para a prática do aikido.

É do tempo dos cursos de audiovisuais do Cine Fórum do Funchal, na Rua do Carmo, as suas primeiras formações a sério, onde vieram grandes realizadores e grandes mestres transmitir o que faziam. Do grupo de muitos alunos iniciais, ficaram poucos. Hoje, acha que quando se tem talento e gosto, não há barreiras. Foca-se no que quer e não olha para trás. A não ser para ver os seus alunos, muitos deles bem lançados até a nível internacional, como o caso de Tony Santos, autor de um documentário sobre o FC Barcelona amplamente divulgado e elogiado.

Sorri quando confessa que vê filmes em DVD e depois “devora” o “making of” com as entrevistas do realizador, dos actores, de toda a magia da produção. Bem mais fácil do que trabalhar com esse “monstro” que foi Virgílio Teixeira, actor madeirense com que realizou “As Memórias Nunca se Apagam”. Hoje, diz mesmo que foi o momento mais complicado de apanhar com uma câmara.

Hoje, não sabe se teria os mesmos conhecimentos se tivesse feito uma licenciatura, e desconhece que licenciatura teria de ter feito para saber o que aprendeu ao longo dos anos. Gosta dos elogios e do reconhecimento do seu trabalho, como recentemente, quando entre mais de 4 mil filmes internacionais, a sua rota do contrabando ganhou uma categoria entre os 60 finalistas.

Neste momento, Eduardo Costa trabalha no seu estúdio debruçado sobre a baía do Funchal, onde está a ser ultimado pela equipa o melhor documentário da sua carreira. Um dia destes, voltamos a ouvir falar dele… e do seu melhor trabalho!

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