Amar a diferença

Quando se dança com a diferença, a música é outra. Percebi isso com a conversa com o homem de quem se fala quando se fala da diferença destes homens e mulheres que arrepiam, fazem chorar e mostram de que calibre são feitos.

Há quase 16 anos que, por cá, se dança com a diferença. 60 cidades de 20 países depois, o grupo de dança inclusiva nascido da ideia de Henrique Amoedo não tem nada a provar a quem os vê e a quem os admira, desde aquele primeiro palco pisado e na anunciada última actuação em tempos difíceis.

Falar com Henrique é ver nos olhos a emoção de tantos anos, de trinta anos, de trabalho nem sempre compreendido e ver através da sua alma o amor que tem pelos meninos e meninas que descobriu um dia, aqui e ali, pela mão de Ester Vieira. Foi um daqueles golpes do destino que os colocou na mesma sala, há muitos anos, no Porto, quando o homem que é o rosto do grupo de gente “diferente” estava a dar uma formação. A professora/actriz viu ali mesmo o potencial do homem que formara um grupo pioneiro no Brasil, chamado Roda Viva.

E a roda viva da sua vida acabou por passar por uma ilha perdida enquanto acabava um Mestrado. Tinha tempo para estudar, durante o dia, dando formação à noite. Foi ficando. Um dia após o outro, uma semana após a outra, um mês após o outro. Foi permanecendo, com uma caixa de ideias que desenvolveu ao longo de meses, até criar o sonho que até hoje muitas pessoas vivem. Fala-me da sua criação com a propriedade de quem a fez crescer e até multiplicar-se. Hoje, o projecto “Dançando com a Diferença” existe em outras zonas do país, nomeadamente em Santa Maria da Feira e Viseu, quase como se de repente tivesse nascido uma espécie de franchisado da patente.

Olhei-o com a admiração de quem olha para um escultor, para a obra que lhe passa diante dos lábios, à medida que me conta o que fez com aquele grupo de estrelas que brilham e nos fazem brilhar o olhar.

Percorri aqueles anos, aqueles espectáculos ensaiados durante meses para fazer sorrir e chorar os que neles acreditaram, mas sobretudo aqueles, os milhares, que conquistaram pelo caminho. Olho para um pai, à minha frente, que fala das dezenas de filhos com o carinho que só uma pessoa especial daquelas poderá ter.

Se não fosse isso, dificilmente teríamos, hoje, um projecto internacionalmente aclamado como um dos grupos que mais tem contribuído para que o reconhecimento das capacidades estético-artísticas de quem ali passa parte do seu dia.

Mas o que mais toca no grupo é o facto de além, naturalmente, do foco principal da sua existência, o artístico, haver uma grande preocupação com os aspectos educativos e de apoio terapêutico, que são trabalhados ininterruptamente nos grupos secundários associados a esta entidade. Porque apesar de haver um “corpo” principal com 21 elementos, todos os outros merecem a mesma atenção e o mesmo carinho por parte da equipa de trabalho.

Nem tudo foram rosas. Quando pergunto qual o momento mais difícil, a resposta sai tardia, depois do olhar percorrer a parede atrás de mim, à procura das palavras. Como se ali estivesse a história destes anos escrita. Depois, acompanhado do suspiro que conteve durante uns segundos, Henrique traz à conversa o “Desafinado”, no Porto Santo, uma actuação em que curiosamente não esteve presente por outros afazeres profissionais. Apesar de longe fisicamente, o seu pensamento esteve com aquelas pessoas que não sabiam, nesse dia, se voltariam a pisar um palco alguma vez na vida.

Não é difícil entender a sua dor no momento em que me fala desse passado. Das dificuldades que teve em afirmar o projecto que, curiosamente, tem já preparada para iniciar em 2018 uma parceria com a Secretaria Regional de Inclusão e Assuntos Sociais para implementar um Centro de Actividades Ocupacionais Artístico, inédito no país, que vai desenvolver a sua essência através da arte em mobilidade.

Mas há um outro momento, aquele que o vai acompanhar durante toda a vida. O da primeira viagem do grupo, ao Brasil, quando participaram num festival internacional onde estavam também as suas origens, a “Roda Viva”. Voltar ao seu país, com um trabalho que estava a fazer fora, reencontrar pessoas com quem tinha trabalhado foi um misto de emoções, mas sobretudo foi um momento em que os alunos viram que não eram únicos no mundo e que não eram tão bons como imaginavam. Desceram à terra, aprenderam muito, sobretudo depois de Amoedo pedir a um colega que desse uma aula “a matar” aos madeirenses, para perceberem que tinham muito chão pela frente.

Quando termina um espectáculo, não é muito expansivo. Não começa aos beijos e abraços aos alunos, dá os parabéns quando gosta e fica calado quando não gosta. O que preocupa. Demora muito mais tempo a chegar perto dos actores. Prefere respirar fundo muitas vezes, apesar de saber que a audiência aplaudiu incansavelmente.

Em Abril voltam a sair de casa, a voar até ao continente, a expandir os seus horizontes. Culpa do homem que planeia, idealiza e executa, está sempre a pensar.

foto: GDD

Destes anos todos, guarda com particular carinho a montagem do espectáculo “Endless”, que demorou dois anos. Estava integrado num projecto europeu que envolvia parceiros em países como a Alemanha, Polónia, Lituânia e Estónia. Conceber o projecto previa que cada um dos parceiros teria uma parte, cabendo a da dança ao grupo madeirense. O tema? O Holocausto. Tiveram de visitar lugares míticos, explorar a cidade de Berlim, tiveram que entender o nazismo, a cidade de Berlim, o que isso significava para os povos envolvidos, nomeadamente alemães e polacos, que faziam parte desse projecto.

O Dançando com a Diferença não é um grupo qualquer. É um nome, uma marca, uma certeza. Para o bem e para o mal, diz Henrique. Porque é preciso manter esse peso enorme do nome que hoje em dia todos conhecem. O homem que o idealizou adoptou a Madeira com o coração de brasileiro que ouve as pessoas que se aproximam de si, muitas vezes apenas porque lhes transmite confiança.

Henrique é um sentimentalista. Como só quem ama a arte consegue ser. Como quem sabe o que tem em mãos, quando se “tiram” crianças do ensino especial e as torna especiais, as leva para um palco e as valoriza. As trata como iguais dentro da diferença que a natureza, ou o destino, lhes deu. Porque construíram juntos o projecto que hoje nos ensina a apreciar a diferença.

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