Adoro ser funcionária pública

Perdi a conta aos quilómetros que fiz atrás da Sandra no Teatro.

Desde há dois anos e meio que a Chefe de Divisão de Cultura e Turismo da Câmara Municipal do Funchal tem estado na velocidade que se lhe conhece, sempre acelerada, à frente de uma equipa de 70 pessoas divididas por diversos serviços e edifícios, mas fez do “Baltazar Dias” o seu quartel general. Adiamos esta conversa vezes sem conta, porque a sua agenda, daquelas grandes de secretária, está cheia na maior parte das 12 horas diárias que passa a trabalhar.

Foram mais de vinte anos contados a entrar no atendimento ao público na autarquia e muitos deles ligados à organização das cerimónias oficiais, que levavam inevitavelmente o seu toque.

Agora, que tem a seu cargo várias outras “casas” além do Teatro, reúne para resolver questões dos Museus Henrique e Francisco Franco e do Açúcar, da Biblioteca Municipal, do Posto de Turismo, do Arquivo e ainda tem de arranjar tempo para os pareceres da cultura na autarquia, que passam todos pela sua mesa.

Sandra Assunção de Nóbrega faz hoje anos. Mas tenho a impressão de que não se lembraria disso se não estivesse de férias. Enquanto a perseguia no teatro escadas acima e escadas abaixo, lá me ia respondendo às perguntas que lhe fazia quando não estava a falar com um colaborador ou com os técnicos da empresa externa que chegaram para instalar o som para uma conferência a meio da tarde. Endireita cadeiras à medida que me explica o objectivo da sessão: ensinar as pessoas a preencher candidaturas para apoios. Parece simples, mas apareceram mais de 70 pessoas a pedir ajuda para não errar na hora de escrever nos formulários. Coisas herdadas do atendimento ao público da câmara, de onde as pessoas saiam sempre com respostas.

Desaparece entre as portas do foyer. Sigo-a. No mesmo instante entra na plateia do teatro e trata de mais um ou dois assuntos, antes de se enfiar literalmente por baixo do palco. Quer mostrar-me as catacumbas. Os bastidores, agora limpos, outrora amontoados de lixo. E de repente irrompe, sempre a explicar os planos para o teatro, pelas catacumbas, duas paredes de pedra com 130 anos que, explica-me, fazem com que a acústica do teatro seja tão boa. “Adoro o que faço”, desabafa. “Tenho muito orgulho em ser funcionária pública”. Porque “sirvo a causa pública, o que é do interesse público” e todos os dias procura fazer o que pode para que a sociedade em que vive tenha algo de melhor. Independentemente de quem está na cadeira do poder. Sempre foi assim.

É por isso que Sandra quer mudar o ADN do teatro. Elogiando a política da actual vereação camarária, que apostou na democratização da cultura. Essa coisa que é de todos, mas que antes só alguns entendiam. Sempre a cem à hora, lá me vai dizendo que quer mostrar o teatro a todos, trazer todos para o teatro, quer que todos o sintam como seu.

É essa a verdadeira acepção da palavra “public servant”, a “pessoa que serve”, de que tanto se orgulha. Mesmo que tenha de se dedicar fins de semana e noites, mas até o filho mais novo já tem uma poltrona no seu gabinete, mostra-me, quase ironizando, porque são muitas as vezes que tem de ir para o trabalho da mãe.

Sempre a sorrir, sobe as escadas estreitas de madeira e mostra-me o topo do teatro, a tal da teia visitável e que recentemente foi usada para sala de exposições. Abre as portas do terraço, dá a volta ao edifício e mostra-me os melhores ângulos para ver a cidade que se estende três pisos abaixo sob a copa das árvores. Quer fazer ali tertúlias. Mas antes, quando nos preparamos para regressar, agarra num balde de água e limpa dois chicharros que jazem no terraço. Solta uma gargalhada. Conta-me que uma gaivota perdeu o almoço. Felizmente não foi sobre uma rua da cidade na cabeça de alguém.

A cabeça está sempre a magicar ideias, volta para dentro, em direcção ao piso intermédio, mostra-me os camarins, orgulha-se do que tem o nome de Eunice Muñoz, inaugurado recentemente. Deixou de haver papéis nos corredores, afixados nas paredes, lixo por todo o lado.

Foi preciso “mostrar os dentes” a algumas pessoas que achavam que o teatro era delas. Não voltaram. Nem precisam, se for para estragar o que é de todos e que a ela e à sua equipa cabe, por agora, zelar.

Sempre a sorrir, apesar de ser difícil lhe ver a cara, porque anda sempre a cem à hora à minha frente, a ex-jogadora de andebol que chegou a ser chamada à selecção nacional, está satisfeita por ver a casa cheia quase todos os dias do ano. Conhece quem ali trabalha e valoriza quem a acompanha, tem o dom de tirar o melhor das pessoas e de as fazer sentir-se realizadas. É, de facto, uma aventura poder lidar todos os dias com pessoas, as setenta que pertencem à sua divisão e as centenas que entram nos espectáculos que ali acontecem, sejam da rede nacional Eunice, que trazem grandes produções ao Funchal ou uma palestra sobre o futuro da cidade, intercalada com um festival de cinema italiano.

Tem planos para os outros museus que coordena e vai logo anunciando que as mudanças vão surgir nos próximos tempos. Antes disso, é tempo de recarregar as baterias, voltar dentro de alguns dias, porque não aguenta muito tempo longe, e entrar no teatro com aquele sorriso de quem está bem com a vida e quer continuar assim. Mesmo que isso seja confuso para alguns…

 

 

 

 

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