A artista dos calhaus

By 11 Novembro, 2016Gente que Marca

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Entrei no edifício cinzento que cruza a Rua dos Netos com a Rua dos Ferreiros, no Funchal e depressa me perdi entre os calhaus que se espraiam pelo chão do piso térreo. Sei que a designer portuguesa habituada a frequentar os palcos das conferências do famoso Ted está à minha espera, mas ao mesmo tempo deixa recado que não quer que eu faça muitas perguntas. O seu tempo, naquele dia como em todos os outros, conta-se em segundos loucos e não em horas pachorrentas, porque não tem tempo para perder tempo.

O seu tempo, no momento em que subo a escada alcatifada bordada por um corrimão de balaústres de madeira pintados de branco, é para se sentar no open space que no piso superior do edifício cinza escuro recebe diariamente quinze pessoas divididas por diversas áreas.

É dali que saem as suas criações, que são materializados os seus planos, é ali que a equipa, agrupada em sectores, é supervisionada. Não há nada que saia daqueles computadores sem passar pelos olhos claros atrás dos óculos de aro preto, como a roupa que veste quando não escolhe o branco.

Podia pensar-se que a sua vida não tem cor, que a sua vida, desde que disse a primeira palavra, Nini, não tem flores, ou padrões, mas Nini Andrade Silva, que não se lembra que se chama Isabel, tem muito mais do que isso. Nem sempre mostra, porque também não é fácil poder vê-la. Passa a maior parte do tempo enfiada em aviões de um continente para o outro, atrás do sonho que teve quando nasceu, há 54 anos, porque sempre quis ser a mulher intemporal que é hoje. E deve ser por isso que diz a sua idade acompanhada de um sorriso.

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De vez em quando levanta a cabeça atrás de um computador e responde a uma pergunta feita do outro lado da sala. Controla tudo, esteja onde estiver e mais tarde vou perceber isso quando, finalmente, a conseguir sentar dez minutos na mesa de trabalho que se funde e se confunde com a loja onde entram os turistas à sua procura.

Fiquei por ali, quase transparente, a vê-la decidir um e outro ponto, só proibida de fotografar os trabalhos do futuro Savoy. Desci ao piso inferior, onde os calhaus continuavam por todo o lado. Em colares, pulseiras, em sofás, em cadeiras de jardim. Senti-me em casa, De tal forma que dali a pouco, quando Nini desceu, veio ao meu encontro explicar um ou outro pormenor do que eu vira. Pedir-me que esperasse um pouco, mais um pouco, porque tinha de resolver uma ou duas coisas, antes do avião do dia seguinte.

Desapareceu atrás da cortina púrpura que divide o seu posto de trabalho e o resto da loja e ouvi-a a espaços, ao telefone e a falar para quem descia as escadas alcatifadas, bordadas com um corrimão de balaústres brancos. Parece reconhecer pelos passos quem desce e quem sobe.

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Finalmente, a mulher intemporal chama-me para perto dela. Tem aqueles milagrosos minutos para falarmos da sua vida, aquela que se traça numa linha recta desde sempre. A sua imagem de marca, como o é a roupa preta ou a roupa branca. Nem mais. Pergunto logo qual a ligação e a resposta, como quem não quer perder tempo, porque dali a pouco passa alguém nas escadas para cima e precisa, certamente, de lhe fazer uma pergunta, sai mais depressa do que penso.

Conta que se estiver de preto, calça uns ténis e vai para a praia e que se estiver com sapatos altos e uma écharpe, vai a um jantar, exatamente com as mesmas calças e a mesma túnica. O mesmo se passa com o branco. E, como anda permanentemente a mudar de lugar, se estiver frio veste preto, se estiver calor veste branco. Simples.

Sorri com os olhos. Os olhos que visualizam os hotéis que decora por todo o mundo, que já lhe valeram os mais cobiçados prémios internacionais de design. Sorri com as mãos que criam as peças de arte que a identificam em todo o planeta. Que seguram as vidas de perto de uma centena de pessoas que directa ou indirectamente dependem do seu sucesso. Há salários para pagar todos os meses e, explica-me, se não criar para ser boa naquilo que faz, não tem as encomendas que lhe permitem pagar as contas. Nesse momento volta à explicação cromática para me dizer que se estiver vestida de cores ou padrões com flores, por exemplo, não consegue criar as peças, a sua cabeça só vai produzir flores e desenhos com cores da roupa, porque, diz quem sabe, incomoda. Nem argumento.

Nini tem uma máxima de vida que lhe recordo. Ouvi-a falar dela uma vez há muitos anos e nunca mais me esqueci: “Para trás, nem para tomar balanço”. Sorri. De repente, vira-se para o lado da cortina e pergunta: “o Américo está aí?” Perco-me. Talvez se tenha lembrado de pedir alguma coisa, a sua cabeça trabalha ao segundo e acho que naquele exacto momento se tinha lembrado de algo. O Américo surge do outro lado do pano púrpura. E Nini apresenta-me o venezuelano que lhe disse a frase da primeira vez. Repete-a em castelhano. Sorri e volta ao trabalho. Afinal, a frase célebre não é sua, mas podia. O seu percurso tem sido uma linha em frente, cada vez mais distante dos primeiros anos, mas sempre com a Madeira como porto seguro. É aqui que se sente em casa, numa vida cheia de truques que fazem pequenas magias. Como o hábito de ter sempre o mesmo quarto quando repete estadas em hotéis, para se sentir um pouco mais identificada com cada um deles. O que não é difícil, porque cada vez mais a designer tem hotéis e prémios espalhados pelos vários continentes. E não tem nenhum de que goste mais do que o outro, todos os trabalhos são especiais, como se fossem os filhos que nunca teve.

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Quer fazer coisas antes de “ir embora”, conforme diz. Sem querer explicar o que isso é, mas a contar que as pessoas lhe agradecem na rua a força e a inspiração que lhes dá. Como se prepara para fazer, este mês, em conferências do Ted em Budapeste. Tal como fez em Kuala Lumpur, Malásia. Pedem-lhe que faça palestras pelo mundo. E dá-se por satisfeita se conseguir passar a palavra a uma única pessoa da plateia. É de choro fácil. Não é insensível como um calhau, atrevo-me a dizer, para ouvir logo depois da sua boca que um calhau é uma vida. A vida das praias, dos miúdos que ali corriam, que mergulhavam para os barcos, para ir apanhar moedas, o calhau é um mundo, ensina-me. Sem termos falado sequer da sua “Garota do Calhau”.

«Sou a junção das pessoas que andaram e andam pela minha vida». Sorri. «Não fiz nada sozinha e o meu nome já não sou eu». É uma marca.

Gosta de fazer acontecer. De fazer sonhar. Faz palestras, se for preciso, às dez da noite e gosta de transmitir a sua energia a alguém. Porque as pessoas merecem. Seja a que horas for.

Fala do Design Centre. Dos prémios que ali se mostram e das peças, as primeiras de cada colecção que hoje em dia estão espalhadas pelo mundo. É uma homenagem a todas as pessoas que trabalharam consigo, aos pais, que a deixaram ser designer e uma forma de as pessoas acreditarem nas profissões futuras. Porque há 30 anos ter essa profissão na Madeira era uma utopia.

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Recosto-me na cadeira, cada vez mais curiosa com a data em cima da mesa. Antes que lhe pergunte, dispara com uma daquelas suas máximas de vida. Não gosta de ver gente aborrecida, porque quando sai de casa, todos os dias, não sabe se vai voltar, por isso vive todos os dias como se fosse o último. Pede que não se ocupe a cabeça com coisas que não interessam.

Não tem um momento marcante na sua vida. Reconhece cada peça sua, sabe todas onde estão, seja em Miami ou no Dubai, na Colômbia, país pelo qual se apaixonou depois de, num primeiro momento ter recusado um convite de trabalho para visitar. Mandou até recado para ao casal de empresários que, se quisessem, viessem à Madeira falar com ela. Sorri. «Entraram-me no escritório pouco tempo depois a dizer-me que tinham vindo buscar-me para ir com eles». Ficou sem argumentos. Assim, como quem sabe que não me conta nada de novo, olha para a mesa de trabalho e diz, em tom mais baixo. «Fiz esse hotel maravilhoso, que ganhou o prémio de melhor hotel das Américas, o Hotel Bog. A partir daí convidaram-me para outros. Já lá tenho oito». Num país onde jurou nunca pôr os pés e que hoje sente que é a sua segunda casa.

«Tenho o mundo na cabeça». Sorri de novo. Antes de eu lhe dizer que apesar de transportar os seus trabalhos à escala planetária na cabeça, o seu coração é do Porto Santo. Agora vejo-lhe a alma nos lábios, quando admite que «não o troco por nada».

Aí, porque a curiosidade enche-me o corpo, atrevo-me a olhar de novo para a data escrita com caneta branca numa esquina da mesa e pergunto o que aconteceu no dia 20 de Outubro de 2016. Nini olha-me com surpresa e aponto os algarismos debaixo do seu cotovelo. Nessa altura, esboça uma gargalhada e responde, afastando as dezenas de papéis e de amostras de tecido que cobrem o resto do tampo castanho. Encolhe os ombros e revela: nada, foi o dia em que achei que esta mesa, que estava um pouco riscada, precisava de algo novo e chamei o pessoal aqui do piso de cima e da loja para fazerem o que quisessem. Cada um desenhou um pouco. «Ficou linda, uma peça de design, sem precisarmos de gastar dinheiro a reformá-la». Depois, puseram a data.

Encontro, então, uma líder. Não a chefe. Todos os colaboradores sabem. Diz que não é chata, mas assume-se exigente. Sobretudo amiga. «Não sou mais do que ninguém aqui dentro, somos todos iguais. Uma equipa, não há pirâmides”. Há a tal linha, digo eu. Sim, “mas alguém tem de tomar uma decisão”, admite.

De sorriso na cara, recosta-se na cadeira. Tem energia para dar e vender todos os dias. Ficou por algum tempo descontraída, mas depressa voltou ao ritmo normal de querer aproveitar o tempo que lhe restava no seu cantinho. Para preparar os cantinhos que oferece, em todo o mundo.

 

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